- "Remuneração dos agentes públicos constitui informação de interesse coletivo ou geral."
Ministro Carlos Ayres Britto, presidente do STF ao cassar uma liminar que impedia a publicação de forma individualizada das remunerações.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

CONGRESSO E STF VÃO ESPERAR PARA DECIDIR A DIVULGAÇÃO DE SALÁRIOS

  JORNAL DO COMÉRCIO, 17/05/2012 - 21h12min

Congresso e STF vão esperar ato normativo para decidir se publicam salários de funcionários. Agência Brasil

O Senado, a Câmara dos Deputados e o Supremo Tribunal Federal (STF) vão esperar publicação de ato normativo do Ministério do Planejamento para definir se vão, ou não, tornar públicos salários e benefícios recebidos por funcionários concursados e comissionados. O decreto que regulamenta a Lei de Acesso à Informação, publicado nesta quinta-feira (17) no Diário Oficial da União, determina que os órgãos do governo federal devem publicar essas informações na internet.

Depois de informar que não publicaria os dados, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), conversou por telefone na tarde de hoje com os presidentes da Câmara, Marco Maia (PT-RS), e do STF, Carlos Ayres Britto. Eles decidiram esperar para ver como o executivo vai implementar o que foi determinado por decreto, segundo a assessoria do Senado.

A Lei de Acesso à Informação foi sancionada no fim do ano passado e tem o objetivo de garantir aos cidadãos brasileiros acesso aos dados oficiais do Executivo, Legislativo e Judiciário. O decreto que regulamenta a lei foi assinado pela presidenta Dilma Rousseff.

No capítulo que trata da transparência ativa, o decreto estabelece que se torne público a "remuneração e subsídio recebidos por ocupante de cargo, posto, graduação, função e emprego público, incluindo auxílios, ajudas de custo, jetons e quaisquer outras vantagens pecuniárias, bem como proventos de aposentadoria e pensões daqueles que estiverem na ativa, de maneira individualizada, conforme ato do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão".

Questionado sobre o sigilo de remuneração no STF, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que a vigência da lei é recentíssima, por isso, a publicação de dados como esses deve ser devidamente analisada. "Em princípio, o que a lei pretende é a transparência mais ampla, irrestrita, mas no caso específico é preciso examinar".

A relação de cargos e remunerações é divulgada pelo Poder Judiciário desde 2009. Apenas o STF não publica essas informações. A Resolução nº 102 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de dezembro de 2009, estabelece que tribunais e conselhos publiquem em seus sites da internet informações relevantes sobre sua gestão financeira e orçamentária, incluindo todos os gastos com recursos humanos.

CGU REBATE CRÍTICAS À DIVULGAÇÃO DE SALÁRIOS

JORNAL DO COMÉRCIO, 18/05/2012 - 20h29min

TRANSPARÊNCIA. Hage rebate críticas à divulgação de salários. Agência Estado
ANTONIO CRUZ/ABR/JC
Para Hage, divulgação de salários de servidores do Executivo federal não é 'invasão de privacidade'

No meio de uma polêmica que irritou servidores e constrangeu os demais poderes, o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, disse nesta sexta-feira (18) que a divulgação nominal de salários de servidores do Executivo federal não é uma "invasão de privacidade". A medida, prevista em decreto publicado no Diário Oficial da União, determina que se tornem públicos na internet, de maneira individualizada, as remunerações dos ocupantes de cargos públicos, com todos os penduricalhos.

"O entendimento no poder Executivo federal, o entendimento da presidenta Dilma é que isso (salário) não é invasão da privacidade, é informação de interesse público, porque é pago com dinheiro público", disse o ministro, após participar em Brasília da abertura 1ª Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social. "Se todos nós que pagamos impostos é que custeamos os salários dos servidores públicos, nós somos os seus patrões em última análise."

O Ministério do Planejamento informou ao jornal O Estado de S. Paulo que "está finalizando ato normativo que deverá ser publicado na semana que vem, orientando os demais órgãos públicos do Poder Executivo" na forma como será feita a publicação dos dados. O decreto determina a divulgação de salários, auxílios, ajudas de custo, jetons e "quaisquer vantagens pecuniárias," de maneira individualizada.

"Se vai ser parcela discriminada, se vai ser valor global, isso não tenho condição de antecipar. Apenas posso garantir que a previsão do decreto é que tudo esteja incluído", afirmou Hage. "Quem não se conforma vai ao Judiciário reclamar e o Judiciário vai dar a última palavra, mas a postura do Executivo federal é de divulgação."

Para a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef) e o Sindicato dos Servidores Públicos Federais no DF (Sindsep-DF), a medida expõe os servidores. As entidades devem aguardar a portaria do Planejamento antes de recorrer à Justiça.

A medida, no entanto, não atinge todo o universo de 934 mil pessoas do funcionalismo público federal: escapam dela servidores que trabalham em empresas públicas, sociedade de economia mista e demais entidades controladas pela União que atuem em regime de concorrência - nesses casos, as normas de divulgação de informação serão definidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), destacou Hage. Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Petrobras se enquadram nesses casos.

O ministro classificou como "bobagem" o comentário de sindicatos de servidores, que criticam a publicidade dos salários argumentando que os casos de corrupção do governo não são protagonizados por eles. "Não se trata de suspeita de corrupção, (isso é) bobagem que andaram dizendo, (a divulgação) é dever de prestação de contas do governo para a sociedade", disse o ministro.

Procurada pela reportagem, a CGU detalhou o salário do ministro Hage: pelo exercício do cargo de ministro, ele recebe R$ 4.091,83 líquidos. "Isto porque, na condição de juiz aposentado, sujeita-se ao chamado 'abate teto', descontando-se o valor dos proventos recebidos do Poder Judiciário, no valor de R$ 22.111,25, além dos descontos normais de Imposto de Renda e Previdência. O total bruto corresponde ao salário teto do Poder Executivo Federal, de R$ 26.723,13", informou a CGU.

A controladoria observa que vários países já publicam os salários de seus servidores na internet, como o Reino Unido, que divulga os de altas autoridades, e o Chile, que disponibiliza a remuneração bruta e líquida de toda a administração.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

SALÁRIO ABSURDO

ZERO HORA - 14 de maio de 2012 | N° 17069

DO LEITOR

Os juízes do STF deverão receber, retroativo a 1º de janeiro, aproximadamente, R$ 32 mil. Um salário destes é um desrespeito ao trabalhador brasileiro. Principalmente àqueles que executam tarefas pesadas, desgastantes e perigosas.

A injustiça toma vulto ao contemplarmos o que ganha um soldado das Forças Armadas: R$ 800 por mês. Podendo ser menos ainda, devido a uma série de descontos.

Os deputados, por sua vez, prometeram reajustar o soldo dos militares. Mas continuam de braços cruzados.

E justamente num momento em que a pátria mais precisa economizar é dado um incentivo escandaloso a um grupo de privilegiados, que já vive num mundo de luxo e riqueza.

Cláudio Frederico Vogt, Militar – Porto Alegre

quarta-feira, 2 de maio de 2012

MPF QUER OBRIGAR DILMA A REAJUSTAR SALÁRIOS DOS JUÍZES

Parecer da PGR sustenta que presidenta contrariou a Constituição ao impedir reajuste e pede ao STF que obrigue o Executivo a reservar R$ 7,7 bilhões para aumento no orçamento de 2013 - por Eduardo Militão | 02/05/2012 07:00 - Agência Brasil - CONGRESSO EM FOCO.

Decisão de Dilma de segurar aumento do Judiciário causou atrito com o ex-presidente do STF Cezar Peluso. O Ministério Público Federal entrou na briga para forçar a presidenta Dilma Rousseff a incluir no orçamento previsão para aumentos salariais dos magistrados, dos procuradores da República e dos servidores do Judiciário e do Ministério Público. Parecer da vice-procuradora geral da República, Déborah Duprat, argumenta que a presidente descumpriu a Constituição ao não reservar R$ 7,7 bilhões para os reajustes deste ano. Para resolver o problema, ela pede ao Supremo Tribunal Federal que obrigue o Executivo a mandar essa reserva para aumentos no orçamento de 2013, o que deve ser feito até agosto. Mas o relator do caso, ministro Joaquim Barbosa, deve levar a ação direta de inconstitucionalidade ao plenário do Supremo só no segundo semestre. Assessores lembraram que ele está totalmente envolvido com o julgamento do mensalão, processo do qual o ministro é relator.

Aumento do Judiciário foi principal tema de eleição em sindicato

A ação foi aberta por uma associação de servidores do Judiciário. O objetivo da entidade era declarar o orçamento inconstitucional, o que paralisaria o país, com a suspensão imediata das obras, por exemplo. Por isso, para vencer a inconstitucionalidade atual, a procuradora Débora Duprat propõe apenas que a presidenta Dilma Rousseff seja obrigada a mandar a proposta de aumento no próximo orçamento.

“O que se propõe (…) é exortar a presidenta da República a incorporar, na proposta orçamentária de 2013, as propostas do Judiciário e do MPU”, escreve a vice-procuradora-geral em seu parecer à ação, apresentado esta semana. Em entrevista ao Congresso em Foco, Débora Duprat disse que, se for o caso, o Legislativo pode negar o aumento ou fazer modificação nos valores apresentados pelo Executivo.

A ação tem a força de, mais à frente, resultar na elevação dos vencimentos dos ministros do Supremo e do procurador geral da República dos atuais R$ 26,7 mil para R$ 32 mil. A remuneração dos ministros do STF é o teto do funcionalismo público. Também seriam elevados os salários dos 120 mil servidores do MP e do Judiciário da União. Como efeito cascata, haveria aumentos para magistrados e membros do Ministério Público nos estados num segundo momento.

Débora Duprat disse que o caso pode ser julgado procedente pelos 11 integrantes do STF. “Há sessões administrativas [do tribunal] em que os ministros, por unanimidade, têm essa compreensão”, afirmou a procuradora ao site.

Concorda com ela o coordenador de comunicação da Federação Nacional dos Servidores do Judiciário e da União (Fenajufe). “É um deboche”, afirmou Jean Loiola ao comentar a decisão de Dilma de não incluir o reajuste no orçamento. “Não cabe ao Executivo fazer cortes prévios.”

Contenção de gastos

Sob argumento de enfrentar a crise financeira internacional, no ano passado, Dilma negou espaço no orçamento para aumentos salariais dos ministros dos tribunais superiores, desembargadores, juízes federais, procuradores da República e servidores dos Judiciário e do Ministério Público.A presidente alertou para “risco de recessão” na economia e disse ser preciso que todos os Poderes fizessem “esforço” para reduzir despesas correntes. Como mostrou o Congresso em Foco, no corte orçamentário de R$ 55 bilhões feito este ano, a equipe econômica chegou a determinar até a duvidosa redução de pagamento de benefícios previdenciários, a fim de obter maior folga para investimentos.

Mas, para Débora Duprat, os argumentos de Dilma, “por mais louváveis que sejam”, não lhe davam o direito de excluir da proposta de orçamento os recursos para o Judiciário e o Ministério Público. “É curiosa a exortação de que todos os Poderes da República compartilhem o esforço de manter o Brasil em sua trajetória de equilíbrio fiscal”, escreveu a procuradora.

Débora Duprat indica não faltarem recursos financeiros para os aumentos. Diz que a lei permite que os gastos com pessoal fiquem limitados a até 50% da receita. Como hoje o custo da folha da União é de R$ 203 bilhões por ano, ou 33% do limite, haveria espaço para conceder o reajuste.

Iniciativa do governo

A Secretaria de Imprensa da Presidência da República não quis comentar o caso. A assessoria do Ministério do Planejamento afirmou que, por aguardar a decisão do Supremo, não considera oportuno se manifestar.

Na Nota Técnica 8/11 do Congresso Nacional (veja a íntegra), consultores defenderam a legalidade da atitude da presidente Dilma ao excluir o aumento do Judiciário da proposta orçamentária. “[Isso] decorre do exercício da iniciativa privativa da Presidente da República consoante os contornos traçados na LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias]”, disseram eles.

As posições dos consultores do Congresso se assemelham à da presidente Dilma. Exemplo disso é resposta dela a outra ação judicial semelhante em tramitação no STF. Para derrubar as críticas do Sindicato dos Servidores do Judiciário do Distrito Federal, o governo usou como argumento notas técnicas de consultores do Congresso.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - O MPF, ao exigir reajuste para juizes, age no interesse próprio e contra a repercussão nos cofres públicos e a necessidade de contenção de gastos proposta pela Presidente Dilma. Esta postura do MPF demonstra um claro interesse corporativo, já que os reajustes serão repassados para os promotores público em todo o Brasil. Afinal qual é a função precípua do Ministério Público: o interesse particular ou o interesse público, a cidadania ou o interesse dos promotores de justiça? Infelizmente no Brasil, os Poderes de Estado estão sendo contaminados pela ganância salarial de seus membros de direção, desprezando a LRF, os limites das cotas orçamentárias e os salários e condições salariais e de trabalho de seus servidores. A propósito: que motivos impediram o MPF o o STF de evitar a aprovação da Emenda Consitucional 19/98 que contrariou o dispositivo previsto no inciso XII do artigo 37 que estabelecia o teto no Executivo ("Os vencimentos dos cargos do Poder Legislativo e do Poder Judiciário não poderão ser superiores aos pagos pelo Poder Executivo.)

terça-feira, 17 de abril de 2012

ECONOMIA ÀS CUSTAS DO SERVIDOR DO EXECUTIVO

PÁGINA 10 | ROSANE DE OLIVEIRA. Economia de R$ 5,6 bilhões - ZERO HORA 17/04/2012

A Procuradoria-Geral do Estado comemora uma decisão do Supremo Tribunal Federal, tomada na última sexta-feira, que livrou o contribuinte gaúcho de arcar com uma conta estimada em pelo menos R$ 5,6 bilhões. Trata-se do julgamento de um recurso extraordinário referente a ações de servidores do Executivo, que tramitam desde 2002, cobrando do Estado o pagamento de uma diferença do tempo do Plano Real. São as diferenças da URV, moeda referencial usada na transição para o real, em 1994.

Milhares de ações foram impetradas por servidores do Executivo cobrando uma correção de 11,98%, que a Justiça havia reconhecido para os servidores da Justiça Federal. No primeiro momento, o Tribunal de Justiça deu ganho de causa aos servidores, mas, depois, a Procuradoria conseguiu provar, inclusive com perícia judicial, que, no período entre a decretação do Plano Real e a entrada em vigor da nova moeda, os servidores estaduais receberam mais do que ganhariam com a conversão pela URV. O governo gaúcho não converteu os salários pela URV, como previa a lei: passou direto de cruzeiro real para real, mas concedeu reajustes que mantiveram o poder aquisitivo na transição.

A PGE teve de atuar em duas frentes: de um lado, recorrendo contra as decisões favoráveis aos servidores e, de outro, contestando os recursos dos funcionários que se julgaram prejudicados. Conforme o coordenador da Procuradoria de Pessoal, Evilázio Carvalho da Silva, a decisão do Supremo encerra uma discussão que se prolongou por mais de 10 anos:

– Conseguimos provar, inclusive com perícia judicial, que os servidores não tiveram redução de vencimentos. Mostramos que os reajustes concedidos naquele período foram até superiores à variação da URV.

Pelas contas de Evilázio, a PGE teve de defender o Estado em mais de 50 mil ações de cobrança das diferenças da URV.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Os servidores dos outros dois poderes (Legislativo e Judiciário) tiveram esta mesma decisão? Ou foram aó os servidores do Executivo que perderam este direito?

sexta-feira, 13 de abril de 2012

AUXÍLIO-PALETÓ CUSTA R$ 252 MILHÕES EM QUATRO ANOS

Valor pago apenas como 14º e 15º salário a parlamentares estaduais e federais durante mandato daria para bancar Bolsa Família para 17 mil núcleos familiares nesse período. Ou para cada deputado comprar 20 ternos por ano - por Edson Sardinha e Mariana Haubert , CONGRESSO EM FOCO, 13/04/2012

Haja paletó! Benefícios popularmente conhecidos como "auxílio-paletó" permitem a cada parlamentar comprar pelo menos 20 ternos novos por ano - Antonio Milena/ABr

Pagar 15 salários anuais a deputados estaduais e federais e senadores custa caro ao contribuinte brasileiro. O Congresso Nacional e 16 assembleias legislativas desembolsam, pelo menos, R$ 252,5 milhões com o pagamento de salários extras a parlamentares federais e estaduais ao longo de quatro anos de mandato. O dinheiro vai para o bolso de, ao menos, 1.315 políticos. Mas poderia sustentar, por quatro anos, 17 mil famílias que vivem na extrema pobreza com o benefício máximo do Bolsa Família, de R$ 306. Ou, ainda, ser utilizado na construção de 4,7 mil casas populares de R$ 54 mil cadliminarsaopauloa – teto do programa habitacional “Minha Casa, Minha Vida” para esse tipo de moradia.

Ou, pegando ao pé da letra o termo, acreditando que a razão do benefício é auxiliar os parlamentares na compra de seus paletós, o valor permitiria a compra de 126.250 ternos, considerando-se o valor de R$ 2 mil, mais do que suficiente para adquirir uma roupa de boa qualidade nas principais lojas masculinas. Cada parlamentar poderia, assim, comprar com o auxílio-paletó, pelo menos 20 ternos novos por ano.

Alegando que apenas seguem o modelo adotado no Congresso, 16 assembleias legislativas têm previsão para pagar, em fevereiro e dezembro de cada ano, duas parcelas equivalentes aos vencimentos dos deputados estaduais, algo em torno de R$ 20 mil, a título de “ajuda de custo” ou “auxílio-paletó”. Em Goiás e em São Paulo, o pagamento está no momento suspenso por força de liminar da Justiça. O Senado discute extinguir o benefício, reduzindo o auxílio a um pagamento no começo do mandato e a outro, no último mês. Mas o corte nos estados terá de ser discutido caso a caso.

A fatura maior recai sobre o Congresso Nacional. Os 15 salários dos 513 deputados e 81 senadores custam, ao longo de quatro anos – tempo de mandato de um deputado e meio-mandato de um senador – R$ 126,8 milhões. Por ano, são R$ 27,4 milhões com o pagamento dos dois extras dos deputados e R$ 4,3 milhões destinados aos senadores. No caso das assembleias legislativas, o montante não fica muito atrás: em quatro anos, são R$ 125,6 milhões. Os valores são estimativas feitas pelo Congresso em Foco com base em informações obtidas nos legislativos estaduais.

Campeões em gastos

No Maranhão – um dos três estados com piores indicadores sociais do país -, o gasto anual com os salários extras de seus 42 deputados estaduais chegou a R$ 4,2 milhões com o pagamento de 18 salários. A conta, no entanto, pode ser ainda maior, já que não inclui os suplentes nem os ex-deputados, que, por lá, também recebem o benefício. Anteontem (11), porém, os maranhenses decidiram reduzir de 18 para 15 o número anual de salários, após a repercussão de reportagem sobre o assunto do programa Fantástico, da TV Globo. Como o primeiro auxílio já foi pago em fevereiro, este ano eles embolsarão o equivalente a 16 subsídios.

Não fosse uma liminar obtida pelo Ministério Público na Justiça, a Assembleia Legislativa de São Paulo gastaria este ano quase R$ 4 milhões somente com as ajudas de custo dos seus 94 deputados – fora os suplentes. Quantia semelhante, porém, foi paga no ano passado. Os pagamentos de 2012 estão suspensos por força de liminar obtida pelo Ministério Público Estadual na Justiça (veja a íntegra da ação), a exemplo do que ocorre em Goiás. Mas as duas Casas não extinguiram o benefício, e aguardam a análise do mérito da questão no Judiciário.

Além de Maranhão e São Paulo, Minas Gerais, com R$ 3 milhões; Rio de Janeiro, com R$ 2,8 milhões, e Bahia, com R$ 2,5 milhões, completam o ranking dos cinco estados que mais têm despesas com os vencimentos extras de deputados estaduais.

Bolso cheio

Como mostrou ontem o Congresso em Foco, dos 1.059 deputados estaduais e distritais do país, pelo menos 721 (68%) recebem 15 salários anuais, assim como os 513 deputados federais e senadores. O número de deputados estaduais beneficiados, no entanto, é ainda maior. As regras variam de estado para estado, mas os suplentes que cumpriram parte do mandato no ano também têm direito a embolsar a “ajuda de custo”, a exemplo do que ocorre no Congresso.

Também pagam o benefício as assembleias de outros 11 estados: Acre, Amazonas, Ceará, Goiás (onde o benefício também está suspenso por liminar da Justiça), Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina e Tocantins.

Procuradas pelo Congresso em Foco, os Legislativos do Amapá, Espírito Santo, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Piauí, Paraná e Sergipe informaram que seus deputados recebem atualmente 13 salários anuais. A reportagem aguarda retorno dos Legislativo de Rondônia e Alagoas. O Distrito Federal extinguiu o benefício no mês passado após pressão popular sobre os deputados distritais.

AUXÍLIO-PALETÓ É ILEGAL E IMORAL

ENTREVISTA OAB-PE: “Auxílio-paletó é ilegal e imoral”. Presidente da Ordem dos Advogados de Pernambuco explica por que entrou com ação para impedir que Assembleia Legislativa de Pernambuco pague 14o. e 15o. salários aos deputados - por Mariana Haubert, CONGRESSO EM FOCO, 13/04/2012 07:06


Depois de ficar sabendo pela imprensa que a Assembleia Legislativa de Pernambuco pagava dois salários extras por ano a seus deputados, a Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Pernambuco, resolveu agir. Primeira entidade a questionar judicialmente o pagamento de 14º e 15º salários nas assembleias legislativas do país, a OAB-PE ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade que tramita no Tribunal de Justiça de Pernambuco, onde aguarda decisão. A assembleia legislativa do estado ainda é uma das 16 casas parlamentares que pagam a seus deputados subsídios extras.

Em entrevista ao Congresso em Foco, o presidente da OAB-PE, Henrique Mariano, explica que a verba é uma forma disfarçada de se burlar a Constituição Federal para aumentar os vencimentos salariais dos parlamentares, já que tem natureza remuneratória. “Ela serve para ressarcir o deputado de alguma despesa que ele tem para o exercício da atividade parlamentar, e nós questionamos porque entendemos que qualquer pessoa de mediana inteligência reconhece que por trás disso existe uma forma dissimulada de se pagar o 14º e 15º salários para os deputados. Não há nenhuma categoria de trabalhador no Brasil que tenha esse tipo de privilégio, de regalia”, argumenta Henrique.

Para ele, além de ser um pagamento ilegal, pois contraria preceitos da Constituição Federal e do estado de Pernambuco, é também um pagamento “absolutamente imoral”. “Isso é um acinte à sociedade e aos trabalhadores brasileiros”. Henrique afirma que é preciso haver uma mudança cultural no sentido de mostrar à sociedade quem paga os salários de seus representantes.

Um projeto de decreto legislativo que tramita no Senado poderá acabar com o pagamento dos dois salários extras no Congresso Nacional. Apesar de o pagamento dos subsídios parlamentares não serem vinculados ao que é pago pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, Henrique acredita que o argumento amplamente usado pelas casas legislativas de que seguem as regras do Congresso, será destruído. “Eu não acredito que todas seguirão, mas eu acho que, indiscutivelmente, no momento em que o Senado extingue esse pagamento, isso vai destruir completamente o argumento que algumas assembleias usam de que pagam tendo como paradigma o Congresso Nacional”, disse. No entanto, o fim dos 14º e 15º salários, acredita ele, só acontecerá por meio de pressão social e vontade política.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com Henrique Mariano, presidente da OAB-PE:

Congresso em Foco – A OAB-PE foi a primeira a questionar o pagamento do 14º e 15º salários no país. Por que resolveram recorrer ao Judiciário?
Henrique Mariano – Nós entramos com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade que está tramitando aqui no Tribunal de Justiça de Pernambuco. O estado ainda paga, infelizmente. Nosso argumento é legal, constitucional. A OAB tem como função não só defender os interesses corporativos da classe dos advogados, mas também ela tem a obrigação legal de defender a Constituição Federal. Esse pagamento, chamado auxílio-paletó, viola alguns preceitos da Constituição Federal e da Constituição do Estado de Pernambuco no sentido de que as duas constituições são taxativas no sentido de determinar que nenhum parlamentar pode receber nenhuma verba remuneratória além dos subsídios que ele recebe no exercício da atividade parlamentar. A Constituição Federal proíbe qualquer complementação de verba nesse sentido. Então, nós entendemos que essa verba é uma forma disfarçada de se burlar a Constituição Federal e a Estadual para aumentar o vencimento, ou seja, a verba remuneratória dos parlamentares. Porque isso é uma verba que é paga durante os quatro anos de mandato em datas pré-fixadas, ou seja, no início da atividade parlamentar e no final de cada ano legislativo, em datas pré-determinadas e no valor exatamente igual ao montante do subsídio que eles recebem na data do pagamento. Então, está patente que isso é uma verba que tem natureza remuneratória, e não indenizatória, e a Constituição é taxativa no sentido de impedir que qualquer parlamentar receba qualquer auxílio remuneratório além do que já é fixado para a atividade parlamentar.

Qual foi a motivação para iniciar o processo judicial?
Aqui em Pernambuco, nós começamos esse processo em decorrência de uma matéria jornalística de um jornal local denunciando a existência desse auxílio. Então, com base nessa matéria, nós notificamos a Assembleia Legislativa informando que aquela medida era ilegal, que contrariava a Constituição Federal e a Constituição Estadual e solicitamos, na oportunidade, que a Assembleia manifestasse se tinha interesse em extinguir, por ato próprio, o pagamento desse auxílio. Eles nem responderam. Nem disseram que sim, nem que não. Então, nós entramos com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra os dois artigos do regimento interno da Assembleia Legislativa que gerou o pagamento desse auxílio. Houve uma grande reação dos deputados alegando que a OAB-PE estava se metendo em assuntos que não eram de interesse institucional da entidade. Então, houve uma forte reação. Na imprensa aqui houve vários ataques contra a OAB-PE, dizendo que a entidade não tinha legitimidade para questionar a legalidade desse pagamento. Mas se você verificar no Estatuto da Advocacia, nas atribuições da OAB, é uma entidade que tem como finalidade institucional, dentre outras coisas, o dever de zelar pelo cumprimento da Constituição Federal e do ordenamento jurídico do país.

Como está a tramitação do processo judicial?
A assembleia foi notificada e intimada e já apresentou sua defesa. A procuradoria do estado também foi notificada. Nós já apresentamos também as réplicas, e o tribunal de justiça está aguardando o parecer do Ministério Público do Estado de Pernambuco.

Qual foi a defesa apresentada pela assembleia?
A defesa da assembleia é de que eles não reconhecem que essa verba tem natureza remuneratória. Eles alegam que ela tem natureza indenizatória. Ela serve para ressarcir o deputado de alguma despesa que ele tem para o exercício da atividade parlamentar e nós questionamos porque entendemos que qualquer pessoa de mediana inteligência reconhece que por trás disso existe uma forma dissimulada de se pagar os 14º e 15º salários para os deputados. Não há nenhuma categoria de trabalhador no Brasil que tenha esse tipo de privilégio, de regalia. Então, o entendimento da OAB-PE é que esse pagamento além de ilegal, porque contraria um preceito da Constituição, é um pagamento absolutamente imoral também e isso é assinte à sociedade e aos trabalhadores brasileiros. O trabalhador recebe o seu 13º salário. Como é que um parlamentar vai receber 14º e 15º salário? A natureza indenizatória é um argumento muito frágil, sem nenhum fundamento legal e nem lógico porque, como eu disse, essa verba é paga indistintamente a todos os parlamentares em data pré-fixada em duas vezes por ano durante os quatro anos de mandato. Então, é evidente que isso equivale ao 14º e 15º salários. É uma forma dissimulada de pagamento.

Em 27 de março, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou o projeto de decreto legislativo que visa extinguir o pagamento dos salários extras no Congresso Nacional. Como essa notícia foi recebida pela OAB-PE?
Nós recebemos a notícia com muita satisfação e muita alegria, porque o Senado já tomou essa atitude através da comissão. Por exemplo, a Assembleia do Paraná, no final de 2011, acho que no mês de novembro, extinguiu também o pagamento do auxílio-paletó no estado. Eles reconheceram a ilegalidade desse pagamento e por uma decisão da própria Mesa Diretora, a Assembleia Legislativa extinguiu o pagamento. A Câmara Legislativa do Distrito Federal também extinguiu o pagamento em razão de uma denúncia que saiu na imprensa. O Senado, observando essa movimentação toda, resolveu também enfrentar e deu um passo importante.

Muitas assembleias argumentam que elas apenas seguem o que determina o Congresso Nacional para seus parlamentares.
Esse é um argumento falacioso, porque as assembleias têm autonomia regimental. Outra coisa também que foi fundamental para questionarmos essa situação foi o seguinte: a Constitução determina que um deputado estadual só pode receber o equivalente a até 75% do que um deputado federal recebe. O subsídio, ou seja, o salário que é pago pela assembleia realmente está dentro desse teto, agora se você soma com esse auxílio-paletó que equivale ao valor exato do subsidio mensal daquele mês que ele recebe, já extrapola o teto dos 75% do que é fixado pela Constituição Federal e que é transportado para a Constituição Estadual. Então, isso é uma forma também de burlar o teto que é fixado pela CF e que é reproduzido pelas constituições estaduais.

E uma vez que o Senado acabe com o pagamento dos subsídios extras, haverá um efeito cascata nas assembleias estaduais?
Eu não acredito que todas seguirão, mas eu acho que indiscutivelmente, no momento em que o Senado extingue esse pagamento, isso vai destruir completamente o argumento que algumas assembleias usam de que pagam tendo como paradigma o Congresso Nacional. Se o Senado extingue, eles não terão mais esse tipo de argumento. Claro que isso vai depender, na verdade, da atuação política e do momento dos dirigentes das assembleias legislativas. Agora, eu acho que no momento em que houver, de direito, a extinção desse privilégio, desse auxílio por parte do Senado Federal, a própria sociedade vai cobrar com mais rigor e com mais força e as assembleias legislativas também extinguem isso, porque é o contribuinte que arca com isso. Eu acho que a sociedade brasileira tem evoluído muito nesse aspecto de cobrar mais transparência e isso vemos em vários estados. Por exemplo, em São Paulo e em Goiás os Ministérios Públicos estaduais também já se insurgiram e já estão questionando judicialmente esse pagamento lá nos respectivos estados. Então nós vemos que esse é um movimento que tem crescido no Brasil e a extinção desse pagamento por parte do Senado Federal vai fortalecer essa luta.